O Judiciário brasileiro ainda não entendeu a internet

Em 2008, escrevi por aqui que o Judiciário brasileiro não entendeu a internet (mais de uma vez, inclusive). Quatro anos depois, em 2012, cheguei a fazer um post reconhecendo que esse cenário estava mudando, com indícios de que de fato era possível compreender a internet.

Três anos adiante, entretanto, retiro o que disse – o Judiciário brasileiro continua sem entender a internet.

A decisão recente (que chegou a ser posta em vigor por algumas horas) que bloquearia o Whatsapp no país por 48h é o exemplo mais emblemático e absurdo dessa falta de compreensão. Entendo a motivação para a decisão – a ferramenta se recusou a quebrar o sigilo de dados numa investigação criminal em andamento – mas a compensação parece desproporcional (bloquear o Whatsapp no Brasil inteiro, por 2 dias??? o que os usuários, que ficaram sem o serviço, têm a ver com o problema judicial???).

Além dessa questão específica, também tem a preocupação das operadoras com as chamadas de voz via dados (inicialmente, chegou-se a cogitar que o bloqueio seria por causa disso). Mas nesse caso é mais provável que a redução do uso do telefone como … ~telefone faça parte de uma tendência mais ampla que não tem absolutamente nada a ver com o Whatsapp. E, igual, nesse caso, não se trata apenas de prejuízo para as operadoras, uma vez que os usuários tendem a usar mais dados, e dados, no Brasil, é algo que ainda tem um custo muito alto.

De qualquer modo, é sempre interessante ver a reação da internet – que foi desde procurar ferramentas alternativas até reagir ao bloqueio com humor.

A culpa é da comunicação intrapessoal

Um dos tópicos abordados no curso de Introdução à Ciência da Comunicação no Coursera foi a pirâmide da comunicação. Algo que talvez passe despercebido por nós – e que a pirâmide revela com clareza – é que a maior parte do tempo passamos conversando com nós mesmos, e não com os outros (comunicação interpessoal), ou consumindo mídias de massa (comunicação social).
 
Pirâmide da Comunicação
 

A comunicação intrapessoal está na base da pirâmide, tanto por ser a mais primordial quanto por ser a mais frequente. Ocorre o tempo todo. Precisamos apreender a conviver conosco mesmo. E precisamos aprender a controlar os devaneios dessa conversa incessante com nós mesmos para conseguir focar. Essa é uma das questões abordadas por Daniel Goleman, no livro “Foco”. Para o autor, “Não é a conversa das pessoas ao nosso redor que tem mais poder de nos distrair, mas a conversa da nossa própria mente”. Há uma “tendência de a mente divagar sempre que é deixada à sua própria sorte”. Essa tendência seria tão forte ao ponto de se considerar a mente divagadora “como o modo-padrão do cérebro — aonde ele vai quando não está trabalhando em alguma tarefa mental”. 

Só que há uma contra-senso nisso tudo: se, de um lado, “A concentração absoluta exige que essas vozes internas se calem”, de outro, “O tempo livre deixa o espírito criativo florescer”. O segredo seria aprender a controlar nosso monólogo interior – divagar às vezes, mas conseguir se concentrar quando necessário. Com equilíbrio, conseguiríamos ser criativos e ao mesmo tempo dar conta das tarefas do dia-a-dia.

Na teoria é fácil. Na prática, ainda não encontrei um equilíbrio que permita conciliar estudo, trabalho e vida pessoal. Talvez por isso esteja fazendo este post-justificativa. Fiquei mais de um ano sem postar por aqui, e finalmente achei uma “culpada”: a comunicação intrapessoal.